Orador silencioso
| Para quê tudo isto ? Nem tu sabes explicar. Palavras soltas sem nexo ? Falas que linguagem ? Nem tu te percebes. Não insistas. Mas às vezes até sentes a certeza do que dizes, não é ? Sentes-te importante ao falar. Finalmente consegues transmitir a tua opinião. Mas afinal não. Qual é a dúvida ? E porquê ? Já devias ter passado a idade dos porquês. Não te questiones. Não fales ainda. Sente primeiro e reflecte depois. Aprende a usar a cabeça. O coração não é um bom orador. Nem tu. Muda o tom. Sê inteligente. Aplica a tua sabedoria. Muda de patamar. Não te magoes. Às vezes o silêncio é o melhor discurso. Salva-te!!!!! |

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O cacimbo despedia-se apressado como se estivesse atrasado para um inadiável encontro noutras paragens, a manhã tinha chegado havia alguns minutos e as sombras da noite perfilavam-se para a rendição. Da janela da casa de banho, enquanto alinhavava os últimos pormenores daquele desatino matinal, via a claridade invadir o quintal por traz do pé de maracujá que depois da estiagem se preparava para me inundar o paladar com os novos rebentos. Fui ao armário, e para um dia como o que se avizinhava, escolhi aquele conjunto de palavras que só usava em dias especiais, certifiquei-me de que não continham erros causados pelo tempo de clausura, se a métrica estava perfeita, se a fonética condizia, dei ainda uma vista de olhos pelos possíveis desarranjos da já usada sintaxe concluindo que tudo estava em ordem, calcei os melhores verbos e de volta à casa de banho, perfumei-me com as mais ricas rimas que conhecia, ajeitei a gramática, mesmo com as mãos dei um ultimo jeito às ideias onde as brancas teimavam em se sobrepor aquelas madeixas, poucas, que ainda me lembravam a juventude e saí para a rua. O ar trazia-me aromas frescos a Fernando Pessoa e Florbela Espanca aliás próprios daquela altura do ano. Apressado e com o peito a rufar de emoção, atravessei o quintal enfiei-me no carro sem cumprimentar o cão que me olhava desconfiado, provavelmente interrogando-se pela pressa pouco usual do meu passo – onde irá tão bem ornamentado –
Do caminho, pouco recordo, toda a minha atenção centrava-se no objectivo que me levara a estar tão atento àquela diferente manhã. Ao chegar, lá estavas, pronta para avaliar todos os tons e matizes com que me tinha enfeitado qual júri de um desfile de alta-costura. Mas eu tinha tudo bem ensaiado e apesar do friozinho no estômago próprio de uma antestreia, quando me encaminhava na tua direcção, os passos pareciam decisivos e firmes. Naquela manhã tudo me parecia novo e assustador mesmo aquele “olá” mecânico tantas vezes repetido, tropeçou na garganta, todos sabemos que dizer facilmente até as coisas mais fáceis de serem ditas não é nada fácil, ou melhor, é algo muito difícil entre as coisas mais difíceis, respirei fundo, fiz a derradeira reflexão, e se alguma coisa mais eu disse, ninguém ouviu, pois sem saber porquê, saí do carro, voltei a atravessar o quintal e fechei-me em casa, mudo. Preciso arranjar palavras novas ou então nunca mais falar, a não ser de mim para mim, por toda a eternidade. Com estas usadas e velhas não me entenderias.
Desde então falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez, também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente.
Haverá ainda salvação? É-me difícil avaliar.
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