sexta-feira, outubro 21, 2005

Nem sempre é sempre assim

Reclamamos da rotina e da vida sem vida que levamos.
E se de repente a vida pudesse mesmo ficar sem vida ? E se por isso a nossa rotina fosse adiada sem data marcada para voltar ?
De certo, os gestos repetidos do quotidiano ganhariam o sabor nostálgico das recordações e transformavam-se em grandes feitos.

Saber colorir a vida com tinta invisível requer sabedoria.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Espreguiçadela

Estava pronta para nascer de novo. Descobrir outra vez o sabor de todos os alimentos, aprender a andar, a falar e até suportava a dor dos dentes a nascerem outra vez. Esfolar os joelhos a tentar subir os muros, juntar as letras e ouvir os sons dos ditongos. Sentir-me importante por falar inglês e pertencer ao grupo das meninas escolhidas para a festa do ballet. Comer a gelatina da Madalena e deitar a lingua de fora ao Nuno que insistia sempre em me fazer caretas. Ser a última da formatura para entrar na sala de aula por ser, naquela altura, a mais alta.
Sentir o nervoso do primeiro dia de aulas na escola dos grandes, guardar religiosamente o horário cheio de disciplinas e intervalos e números de salas de aulas para não me perder. Conhecer o meu colega de carteira e perceber que ele seria o meu primeiro amor e achar que seria para toda a vida. Desiludir-me depois com os outros amores e apaixonar-me a sério pela primeira vez.
Tantas coisas pequeninas que vamos vivendo e que normalmente só nos lembramos quando paramos para as recordar e outras que nem sequer nos lembramos de as ter vivido. Mas tudo nos vai influenciando e acrescentado mais amor, mais raiva, mais carinho, mais tristeza, mais vida, mais pessoas.
Por isso devemos nascer todos os dias e começar a vida com uma espreguiçadela para que tudo tenha sabor a novo.

terça-feira, outubro 11, 2005

Esperar encontros

Cada espera era vivida como se fosse o primeiro encontro. Os segundos eram minutos e os minutos eram horas de dias e dias. Ora de rosto encostado à janela embaciada pela ansiedade da respiração, ora deitada com o telefone na cabeceira ou sentada ao volante sem direcção, a sua vida era esperar a espera de um novo encontro.
Preparava-se como se fosse para uma audição. Não que a fossem avaliar, mas apenas para que tudo fosse perfeito. Enquanto esperava imaginava os momentos em vários cenários onde faltava sempre o tempo como adereço principal.
Os encontros eram breves mas cheios de vontade de serem eternos e de se prolongarem pelos minutos como se fossem horas.
Mergulhavam no olhar um do outro em busca de abraços, beijos, juras.
As palavras que soavam a despedida eram disfarçadas por outras de esperança que para ela mais pareciam um adeus profundo.
O cenário ficava com cores de chuva e o vento soprava-lhe o brilho do olhar onde ainda guardava aquele encontro.
O regresso a casa era o início de mais uma espera.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Pressa nos passos

Sempre com passo apressado, de olhos fixos na meta e ansiosa pela chegada.
Com pressa de chegar a lugar nenhum.
Uma prova de atletismo, com barreiras altas para dificultar ainda mais.
Tem sido este o ritmo do meu percurso.
Já é tempo de mudar de modalidade.

Talvez a maratona seja mais sensato.
Encontrar um ritmo equilibrado que permita olhar em volta.

terça-feira, outubro 04, 2005

NENÚFAR


A vida é uma aprendizagem constante.
São muitas disciplinas cheias de problemas de operações complicadas.
Equações com raízes quadradas profundas.
Às vezes gostava de ser nenúfar.
Emanar apenas a minha beleza numa superfície cristalina.

Não custa viver, o que custa é saber viver.