Estava pronta para nascer de novo. Descobrir outra vez o sabor de todos os alimentos, aprender a andar, a falar e até suportava a dor dos dentes a nascerem outra vez. Esfolar os joelhos a tentar subir os muros, juntar as letras e ouvir os sons dos ditongos. Sentir-me importante por falar inglês e pertencer ao grupo das meninas escolhidas para a festa do ballet. Comer a gelatina da Madalena e deitar a lingua de fora ao Nuno que insistia sempre em me fazer caretas. Ser a última da formatura para entrar na sala de aula por ser, naquela altura, a mais alta. Sentir o nervoso do primeiro dia de aulas na escola dos grandes, guardar religiosamente o horário cheio de disciplinas e intervalos e números de salas de aulas para não me perder. Conhecer o meu colega de carteira e perceber que ele seria o meu primeiro amor e achar que seria para toda a vida. Desiludir-me depois com os outros amores e apaixonar-me a sério pela primeira vez. Tantas coisas pequeninas que vamos vivendo e que normalmente só nos lembramos quando paramos para as recordar e outras que nem sequer nos lembramos de as ter vivido. Mas tudo nos vai influenciando e acrescentado mais amor, mais raiva, mais carinho, mais tristeza, mais vida, mais pessoas. Por isso devemos nascer todos os dias e começar a vida com uma espreguiçadela para que tudo tenha sabor a novo.
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