Busca
Foi difícil identificar o portão de madeira antiga e de cores ressequidas pelo sol, entre tantos outros portões igualmente desbotados que se seguiam naquela rua. Não gostava de perder tempo e aquela procura estava a deixá-la irritada. Acabou de abrir o portão entreaberto e entrou decidida para cumprir o mais rápido possível a tarefa que lhe tinham incumbido. As cores esbatidas repetiam-se no interior do edifício mas sem que isso lhe retirasse qualquer beleza, pelo contrário, até ganhava um certo charme. A sala da entrada era ampla e alta o suficiente para acomodar uma escadaria que seguia pelas paredes até ao 3º andar. Estava sozinha. Sentiu-se minúscula perante toda aquela grandeza. Olhou em redor na tentativa de descobrir onde deveria dirigir-se. Pela lógica seria uma das portas logo ali da entrada, mas o som das vozes que se soltavam da música de fundo, ora em forma de canto, ora em forma de comando, despertou todos os seus sentidos. Nada lhe soava a estranho. Aproximou-se do primeiro degrau e iniciou a escalada lentamente. À medida que subia as escadas o som ía aumentando. Era como se tivesse sido enfeitiçada por toda aquela musicalidade. Os seus passos delicados seguiam o trilho daquele feitiço, quando de repente parou no fim de um dos corredores. Sentiu uma corrente de ar que vinha duma porta entreaberta e que lhe trazia um cheiro bastante familiar. O coração acelerou o ritmo e pulsava por todo o seu corpo. Na tentativa de disfarçar, a sua memória dizia-lhe que aquele cheiro seria provavelmente do verniz que estariam a espalhar naquelas madeiras ressequidas. A voz em forma de comando destacava-se agora de toda a musicalidade e vinha daquela fresta. Aproximou-se e espreitou. Sentiu o corpo gelado e só os olhos mexiam para percorrer toda aquela sala repleta de meninas que estavam ali para serem o que gostariam de ser quando fossem grandes. Bailarinas, tal como ela gostaria de ter sido. O gelo que sentia derreteu-se então em forma de lágrimas e deu lugar a um calor intenso de emoção. Tudo lhe era tão familiar que quase se atreveu a pular para o meio da sala e mostrar tudo aquilo que tinha aprendido durante 12 anos. Foi no meio de uma pirueta que sentiu alguém a tocar-lhe no ombro e viu-se forçada a parar. - Procura alguém ?- perguntou-lhe uma senhora. - Sim...procuro-me a mim. E desceu as escadas em direcção à secretaria para terminar a tarefa que lhe tinham incumbido, deixando para trás aquele cheiro que era afinal da resina utilizada nas sapatilhas para não escorregarem. |

2 Comments:
À minha bailarina!
Os focos de luz ofuscavam quem para eles dirigisse o olhar, a luminosidade feria-me a retina.
A bailarina em pontas, no canto esquerdo do palco aproximou-se, rodopiou com leveza diante dos meus olhos, o ribombar da precursão subiu de tom contrastando com a graciosidade dos movimentos, o momento era hipnotizante, enquanto aqui e ali salpicavam gotas em forma de notas musicais, o bailarino como que aguardava o momento em que com mãos fortes a seguraria pela cintura projectando-a no ar num gesto majestoso, másculo, porem inebriante de graça, num crescendo de intensidade o compasso era agora estonteante, as notas cavalgavam furiosas, sem descanso, sensuais.
Redobrei a atenção, inspirei profundamente, o espectáculo era avassalador, reclinei-me na cadeira quem sabe para ver melhor, de mais perto, os aplausos cresciam cavalgando em uníssono pela plateia, a euforia com que eram derramados pela sala davam a perceber a grandiosidade do evento.
Olhei o libreto que acompanhava os títulos de entrada. Incrédulo reli várias vezes,
Percebi então que era a minha existência, ali mesmo diante de todos, transformada neste “pas de deux” fascinante que somos nós.
Será que: "Não sei o que dizer" conta como comentário? Pelo menos contará certamente para vos mostrar que passo sempre por aqui.
Fiquem bem e mantenham sempre a graciosidade de saber dançar com as palavras.
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